Não confie na aparência de sucesso
Vivemos um tempo diferente.
Se tivéssemos oportunidade de conversar com nossas bisavós hoje e contar-lhes sobre como está o mundo, certamente elas pensariam que estamos loucos e nos fariam algumas perguntinhas como:
- Você precisa mesmo ter mais de 10 conjuntos de roupas?
- Você precisa trocar a cada dois anos de carro, sendo que ele está em perfeito estado?
- Computador? É preciso mesmo um modelo novo?
- Você tem mesmo que fazer fotos e postar nesta telinha todos os dias?
- O que os "likes" vão trazer para sua vida, menino?
Serão perguntas infinitas. Isto se ela não enfartar ou chamar o médico para internar você.
Bom, piadinhas de vó à parte, é nítido que o mundo está mudando de forma tão acelerada que deixa qualquer um louco. As ondas estão cada vez mais curtas. Em função da tecnologia, as eras estão durando 5 anos. Antes já chegaram a durar mais de 100 e tinham até nome (lembra de estudar na escola sobre revolução industrial?).
Vamos chegando em um ponto onde estamos praticamente anestesiados. Tudo que chega vamos absorvendo e tentando fazer parte. Ocorre que muitos de nós, eu me arrisco a dizer que é a maioria, em função da dificuldade e da necessidade de fazer parte do senso comum e estar em dia com o programa vigente, simplesmente finge.
É um faz de conta infinito para fazer parte e se sentir enquadrado em um mundo que mais parece um liquidificador girando. É impossível fazer parte totalmente, é impossível estar plenamente adaptado e é impossível tentar girar com a roda do cansaço e sofrimento.
O que as redes sociais mostram são pessoas carentes de curtidas que mostram estilos de vida que não têm, conselhos que não seguem, lugares que não frequentam e amores que não aquecem seu coração. Tudo isto para fazer parte do paradigma vigente e se sentirem integrados ao modelo de vida idealizado.
Do lado contrário da tela do smartphone, assistindo, estão as pessoas que pensam que aquilo tudo é verdade, que perante este contexto ficam pensando que são os únicos do mundo que são fracassados e que não conseguem ter o padrão de vida das redes sociais, que todos estão frequentando lugares legais, evoluindo no autoconhecimento, sendo amados plenamente e é só ela que está enterrada na infelicidade total.
Este é mais um ingrediente da torta da ansiedade que impera no mundo. Nunca se vendeu tanto remédio para dormir, tanto remédio para ficar acordado, para aguentar o trabalho que não dá alegria, que não é glamoroso. Nunca se viu tanto desespero, tanta tentativa de pertencimento e tanta sensação de desalinhamento.
Pessoas estão renunciando à própria vida para fazer parte de um circuito impenetrável de imagens projetadas. E os ditos influenciadores contribuem quando exibem suas imagens de vidas perfeitas, tiradas a partir de ensaios de horas e escolhidas a partir de milhares de fotos, para que sua audiência vá dormir sob a sombra da comparação, da autopiedade e fazendo contas de em quantas prestações vai comprar o produto ou a viagem indicada.
Precisamos entender que isto tudo é um conceito comercial. É puro neuromarketing calculado meticulosamente para afetar a psique das pessoas e as fazerem desejar consumir mais. Consumir em todos os aspectos, pois consumir não se trata apenas de comprar coisas (embora seja o primeiro item da lista), mas consumir se trata também de informação, formação, assuntos diversos, temas irrelevantes e discussões sem propósito.
Onde isto tudo nos leva? Nos leva ao objetivo principal que é estarmos anestesiados, hipnotizados, sem condições humanas e psicológicas de enxergarmos, quiçá lutarmos, contra o paradigma vigente. Não se engane, pois o paradigma vigente é este mesmo, de concentração de renda e de pessoas infelizes consumindo imitações baratas de roupas e remédios em lote, sendo bombardeadas por informações de desejos seguidos de mensagens subliminares de escassez e do quanto não são capazes de acompanhar tudo que está acontecendo, por mais que tentem. Esta é a única maneira de manter o sistema do jeito que está, ou seja, mantendo o cachorro correndo atrás do próprio rabo.
Não estou falando aqui em implantar socialismo utópico, mas falando em um paradigma de mundo no qual mais pessoas tenham mais acesso a sonhar, a desejar, a almejar e conquistar situações em que simplesmente sejam felizes. Mais que isto, que as pessoas estejam alinhadas com o que é mais importante que é sua sanidade, sua saúde mental e emocional. Um paradigma em que as posses das pessoas não pesem tanto na equação.
O controle imposto pelos idealizadores e comandantes do sistema não permite e não quer que nos sintamos felizes. É necessário que a maioria se sinta infeliz e desafortunada. Assim, tudo o que é produzido por esta maioria volta e gira dentro do sistema.
Entenda de uma vez por todas. GENTE FELIZ NÃO CONSOME. Gente feliz está ocupada sendo feliz mesmo, mais nada. Por isto o sistema não tem interesse de fazer, muito menos de manter, as pessoas felizes.
Portanto, precisamos estar atentos aos julgamentos e avaliações que fazemos do que assistimos todos os dias na TV e, principalmente, nas redes sociais. A maioria do conteúdo que chega até nós é friamente calculado para nos manter desejando e ao mesmo tempo sentindo que não somos capazes de ter.
Muitas das pessoas que dão face e voz a este mecanismo não têm a mínima noção do mal que estão fazendo às pessoas e da ansiedade que estão causando. Pois os influenciadores realmente vivem uma vida de sonho, vivem o perfeito conto de fadas, pois é preciso ter verdade para a propaganda convencer. Estas pessoas transmitem verdade, elas realmente são felizes e bem-sucedidas com suas vidas e tentam convencer o restante do mundo de que esta vida é possível para todos.
Voltamos a lembrar das frases que diziam as nossas queridas avós: As aparências enganam, não se deixe levar por elas.